Uma dor na lateral do punho que aparece quando você segura algo, gira uma chave ou simplesmente move o polegar. No início, parece algo passageiro — mas, com o tempo, piora. Fica difícil abrir uma tampa, segurar uma caneca, escrever. E você percebe que essa dor sempre esteve ligada aos movimentos que faz todos os dias no trabalho.
Se esse cenário se parece com o seu, é possível que você esteja diante de uma tenossinovite de De Quervain — uma das lesões de punho mais comuns entre trabalhadores que realizam movimentos repetitivos com as mãos. Neste artigo, você vai entender o que é essa condição, por que ela está classificada como doença relacionada ao trabalho, como funciona a perícia médica nesses casos e o que você pode fazer para proteger seus direitos.
Um ponto que vale desde o início: a tenossinovite de De Quervain é reconhecida pelo Ministério da Saúde como doença relacionada ao trabalho (Grupo II da Classificação de Schilling). Isso significa que, quando existe exposição ocupacional compatível, o trabalho é considerado fator de risco contributivo. Mas entre ter esse reconhecimento oficial e conseguir comprová-lo na perícia médica, existe um caminho técnico que exige preparo — e que muitos trabalhadores percorrem sem a orientação adequada.
O Que É a Tenossinovite de De Quervain?
A tenossinovite de De Quervain (CID M65.4) é um processo inflamatório que afeta os tendões do abdutor longo do polegar e do extensor curto do polegar — dois tendões que passam por um túnel estreito (chamado primeiro compartimento dorsal) na região lateral do punho, junto ao processo estiloide do rádio.
Quando esses tendões se espessam por uso excessivo ou inflamação repetida, passam a sofrer atrito ao atravessar o túnel, gerando dor, inchaço e dificuldade de movimento. É como se os tendões "engrossassem" demais para o espaço disponível — e cada movimento do polegar ou do punho se transformasse em uma fonte de dor.
Na prática, isso afeta diretamente a capacidade de realizar atividades que dependem da mão e do punho — tanto no trabalho quanto no dia a dia. Segurar objetos, fazer pinça com o polegar, girar a mão, usar ferramentas: tudo se torna doloroso e, em casos mais graves, incapacitante.
Sintomas: Como a Tenossinovite de De Quervain Se Manifesta
Os sintomas são bastante característicos, o que facilita o diagnóstico clínico — mas atenção: o fato de os sintomas serem "típicos" não significa que a perícia médica seja simples. Veja os principais:
Dor na face lateral do punho: O sintoma principal. A dor se localiza sobre o processo estiloide do rádio (a proeminência óssea do lado do polegar) e pode irradiar para o antebraço ou para o polegar.
Dor ao movimento e à preensão: Segurar objetos, fazer pinça com o polegar, girar o punho ou estender o polegar desencadeiam ou agravam a dor. Nos casos mais intensos, até movimentos sutis provocam desconforto.
Caráter variável da dor: Os pacientes descrevem sensações diversas — pontada, facada, queimação. Alguns relatam dormência e formigamento discretos, provavelmente pela proximidade do nervo sensitivo radial, que pode ser envolvido no processo inflamatório.
Sinais inflamatórios: Em fases agudas, pode haver inchaço, vermelhidão e calor local evidentes, com dor que chega a ser insuportável ao toque.
Limitação funcional progressiva: Com a cronificação, a capacidade de realizar tarefas manuais diminui progressivamente, comprometendo tanto as atividades laborais quanto as de vida diária.
💡 Você sabia? A tenossinovite de De Quervain faz parte do grupo de lesões classificadas como LER/DORT (Lesões por Esforço Repetitivo / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). Isso significa que, quando associada a fatores de risco presentes no trabalho, ela é legalmente reconhecida como doença ocupacional — com todas as consequências jurídicas que isso implica, incluindo estabilidade no emprego, benefícios previdenciários acidentários e direito a indenização.
O Que Causa a Tenossinovite de De Quervain?
A etiologia é multifatorial — como a maioria das doenças ocupacionais. Mas os fatores de risco ocupacionais estão bem documentados e são reconhecidos pela literatura médica e pelo Ministério da Saúde.
Fatores de Risco Ocupacionais
As causas ocupacionais da tenossinovite de De Quervain estão diretamente ligadas ao tipo de movimento que o trabalhador realiza com as mãos e punhos ao longo da jornada:
Movimentos repetitivos do polegar: A repetição constante de movimentos de flexão, extensão e abdução do polegar é o fator de risco mais relevante. Trabalhadores que fazem pinça de polegar repetidamente ao longo do dia estão entre os mais afetados.
Pinça de polegar associada a força: Quando o movimento de pinça é realizado junto com flexão, extensão, rotação ou desvio ulnar do punho — especialmente com aplicação de força — o risco aumenta significativamente.
Desvio ulnar repetitivo do punho: Movimentos laterais do punho em direção ao dedo mínimo (desvio ulnar), quando realizados repetidamente, forçam os tendões do primeiro compartimento contra o túnel osteofibroso.
Polegar mantido em posição elevada ou abduzida: Atividades que exigem manter o polegar afastado da mão por períodos prolongados durante o trabalho.
Atividades Laborais Mais Associadas
Algumas atividades profissionais concentram vários desses fatores de risco simultaneamente:
- Uso prolongado de chave de fenda e ferramentas manuais similares
- Montagem de equipamentos eletrônicos e componentes que exigem pinça fina e repetitiva
- Uso prolongado de tesouras (profissionais de costura, cabeleireiros, podadores)
- Trabalho em linhas de montagem com movimentos repetitivos das mãos
- Atividades de digitação e uso de mouse em jornadas prolongadas sem pausas
- Trabalhos que envolvem empacotamento, embalagem e parafusamento manual
O que muitas pessoas não sabem é que não é necessário que a atividade seja fisicamente pesada para causar a tenossinovite de De Quervain. Movimentos leves, mas repetidos centenas ou milhares de vezes ao dia, ao longo de meses ou anos, são suficientes para desencadear o processo inflamatório. A repetitividade, mais do que a força, é o principal vilão.
Fatores Não Ocupacionais
A tenossinovite de De Quervain também pode estar associada a fatores não ocupacionais, como doenças reumáticas (artrite reumatoide), doenças de depósito, alterações hormonais (gravidez, puerpério) e atividades esportivas. Na perícia, o perito deve avaliar se esses fatores estão presentes — mas a existência deles não exclui automaticamente a contribuição ocupacional.
Como o Diagnóstico É Feito
O diagnóstico da tenossinovite de De Quervain é essencialmente clínico — baseado no exame físico e na história do paciente. Exames de imagem geralmente não são necessários para confirmar o diagnóstico, embora possam complementar a avaliação.
O Teste de Finkelstein
O teste clínico mais importante para o diagnóstico é o teste de Finkelstein (ou sua variação, o teste de Eichhoff). O procedimento consiste em:
- O paciente flexiona o polegar e o posiciona dentro da palma da mão, envolvendo-o com os outros dedos
- O examinador realiza um desvio ulnar do punho (inclina o punho em direção ao dedo mínimo)
- Se o paciente referir dor intensa na região do processo estiloide do rádio, o teste é positivo
Esse teste é altamente sensível e é considerado o exame clínico de referência para a tenossinovite de De Quervain.
Exames Complementares
A ultrassonografia pode ser realizada e demonstra espessamento dos retináculos e presença de líquido na bainha sinovial — achados compatíveis com o diagnóstico. Eventualmente, pode revelar lesões associadas, como cistos sinoviais.
Exames laboratoriais são úteis apenas para diagnóstico diferencial — afastar doenças reumáticas, por exemplo — e não para confirmar a tenossinovite em si.
Aqui entra um ponto que merece atenção especial na perícia: justamente por ser um diagnóstico predominantemente clínico, a qualidade do exame físico realizado pelo perito é determinante. Se o perito não realiza o teste de Finkelstein adequadamente, ou se não avalia a amplitude de movimento do punho e do polegar com rigor, o laudo pode subestimar a gravidade do quadro. Você saberia avaliar se o teste foi aplicado com a técnica correta?
A Tenossinovite de De Quervain Como Doença do Trabalho: O Que Diz a Legislação
O Ministério da Saúde do Brasil reconhece a tenossinovite de De Quervain como doença relacionada ao trabalho, classificada no Grupo II da Classificação de Schilling. Isso significa que, quando excluídas as causas não ocupacionais e identificada a presença de fatores laborais — como posições forçadas, repetitividade e ritmo de trabalho penoso — o trabalho é considerado cofator de risco na etiologia multicausal da doença.
Na prática jurídica, o reconhecimento do nexo causal entre a tenossinovite de De Quervain e o trabalho gera consequências importantes:
Estabilidade no emprego: 12 meses de estabilidade após o retorno ao trabalho (art. 118, Lei 8.213/91).
Benefícios previdenciários acidentários: Auxílio-doença acidentário (B91), com depósito de FGTS durante o afastamento — condições mais favoráveis que o auxílio-doença comum.
Indenização por danos morais e materiais: Possibilidade de reparação judicial pelos danos sofridos.
Emissão de CAT: A empresa é obrigada a emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho quando a doença ocupacional é diagnosticada.
O problema é que esses direitos só se materializam quando o nexo causal é reconhecido na perícia médica. E a distância entre ter a doença e ter o nexo reconhecido pode ser enorme.
O Desafio do Nexo Causal na Perícia
A tenossinovite de De Quervain é classificada no Grupo II de Schilling — onde o trabalho é concausa. Isso significa que, na perícia, o perito precisa ponderar a contribuição do trabalho frente aos demais fatores de risco. E é nessa ponderação que as coisas podem dar errado.
Argumentos Comuns Para Negar o Nexo
A defesa do empregador frequentemente utiliza argumentos como:
- "A doença é degenerativa e compatível com a idade" — quando, na verdade, a tenossinovite de De Quervain é uma doença inflamatória, não degenerativa
- "A trabalhadora está na faixa etária em que alterações hormonais podem causar a doença" — o que pode ser verdade, mas não exclui a contribuição ocupacional
- "Outros fatores, como uso de celular ou atividades domésticas, podem ser a causa" — argumento que tenta transferir a responsabilidade sem analisar a carga de trabalho real
Sem um profissional com conhecimento médico para contestar essas alegações com fundamentação técnica, elas podem ser aceitas pelo perito — e incorporadas ao laudo como justificativa para a negação do nexo.
O Que o Perito Deveria Avaliar (E Nem Sempre Avalia)
Uma perícia adequada em caso de tenossinovite de De Quervain deveria incluir:
- Realização correta do teste de Finkelstein
- Avaliação da amplitude de movimento do punho e polegar bilateralmente
- Análise detalhada das atividades laborais — tipo de movimento, frequência, duração da jornada, ausência de pausas
- Avaliação de fatores organizacionais do trabalho — metas, ritmo, invariabilidade da tarefa
- Consideração da cronologia — quando os sintomas começaram em relação ao início da atividade laboral
- Análise da documentação médica — evolução clínica, tratamentos realizados, afastamentos
A ausência de qualquer uma dessas etapas pode comprometer a fundamentação do laudo. E, na maioria dos casos, o trabalhador não tem como avaliar se a perícia foi conduzida de forma completa.
O Papel do Assistente Técnico na Tenossinovite de De Quervain
Nos casos de tenossinovite de De Quervain com alegação de nexo ocupacional, o assistente técnico — médico indicado pela parte, conforme garantido pelos artigos 465, §1º, II e 466 do CPC — pode atuar de forma decisiva em cada etapa do processo pericial:
- Acompanha a perícia e verifica se o teste de Finkelstein foi realizado corretamente e se o exame físico foi completo — incluindo avaliação bilateral para comparação
- Formula quesitos técnicos que direcionam a análise do perito para a exposição ocupacional específica — tipo de movimento, frequência, carga horária, ausência de medidas ergonômicas
- Contesta argumentos infundados da defesa, como atribuir a doença a "fatores degenerativos" quando se trata de uma patologia inflamatória
- Analisa o laudo pericial verificando se a classificação de Schilling foi corretamente aplicada e se a literatura do Ministério da Saúde foi considerada
- Elabora parecer técnico fundamentado demonstrando que as condições de trabalho configuram fator de risco reconhecido para a tenossinovite de De Quervain
Imagine esta situação: uma trabalhadora de linha de montagem de eletrônicos, após 8 anos fazendo pinça fina repetitiva por 8 horas diárias, desenvolve tenossinovite de De Quervain bilateral. O perito conclui que a condição é "multifatorial" e que não é possível atribuir ao trabalho sem que ela realize um laudo detalhado da análise dos fatores laborais. Um assistente técnico sabe que o uso de pinça de polegar associada a movimentos repetitivos do punho por jornada prolongada é, segundo o próprio Ministério da Saúde, fator de risco reconhecido — e pode demonstrar, com fundamentação técnica, que a omissão da análise laboral invalida a conclusão do perito.
Sem esse contraponto, a conclusão genérica de "multifatorial" prevalece — e, na prática, funciona como negativa de nexo.
⚠️ Importante: A tenossinovite de De Quervain frequentemente causa recidivas — mesmo após tratamento bem-sucedido, os sintomas podem retornar se o trabalhador volta às mesmas condições laborais sem adaptação. Na perícia, esse padrão de recidivas associadas ao retorno ao trabalho é um argumento técnico forte em favor do nexo causal — mas que precisa ser adequadamente documentado e apresentado.
Tratamento: O Que Você Precisa Saber
Embora o foco deste artigo seja a relação com o trabalho, conhecer as opções de tratamento é relevante porque a documentação do tratamento compõe parte importante do histórico que o perito avalia.
Tratamento conservador: Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por períodos curtos, imobilização do polegar e punho com órtese por uma a duas semanas, fisioterapia (ultrassom terapêutico, laserterapia, crioterapia, exercícios de alongamento) e, quando indicado, infiltração com corticosteroide.
Tratamento cirúrgico: Indicado quando o tratamento conservador falha ou em graus mais avançados (III e IV). A cirurgia consiste na abertura do túnel osteofibroso para liberar os tendões — um procedimento relativamente simples, com boa taxa de sucesso e baixa incidência de recidiva.
Para a perícia, o histórico completo de tratamento — incluindo tentativas conservadoras frustradas, número de infiltrações, necessidade de cirurgia e eventuais recidivas — constitui evidência objetiva da gravidade do quadro e da relação temporal com a atividade laboral.
Conclusão: A Tenossinovite de De Quervain Tem Reconhecimento Legal — Mas Exige Prova Técnica
A tenossinovite de De Quervain é oficialmente reconhecida como doença relacionada ao trabalho pelo Ministério da Saúde. Os fatores de risco ocupacionais — repetitividade, pinça de polegar com força, desvio ulnar — estão bem documentados. O enquadramento legal existe. Mas nada disso garante, por si só, que o nexo causal será reconhecido na perícia do seu processo.
A diferença está na qualidade da avaliação pericial, na fundamentação dos quesitos, na organização da documentação e na capacidade de contestar tecnicamente conclusões que ignorem a contribuição ocupacional. Em um procedimento onde cada detalhe técnico pode definir o resultado, ter ao seu lado um profissional médico que conheça a doença, a legislação e a literatura não é excesso de cautela. É a proteção que a lei garante — e que o seu caso pode exigir.
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