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Perícia Médica

Tenossinovite de De Quervain: Quando a Dor no Punho É Doença do Trabalho e Como Provar na Perícia

CID M65.4 significa tenossinovite de De Quervain. Veja sintomas, possível relação com o trabalho e o que deve ser avaliado na perícia.

Dr. Mário Guimarães
Dr. Mário GuimarãesAutoria e revisão médica · CRM-DF 18.666 · RQE 17.972
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22 de fevereiro de 2026
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Atualizado em 17 de agosto de 2026
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13 min de leitura

Conteúdo informativo. A aplicação ao caso concreto exige avaliação médica e jurídica individual.

Avaliação do punho e polegar por tenossinovite de De Quervain

Resposta direta: o CID M65.4 significa tenossinovite estiloide radial, também chamada tenossinovite de De Quervain. O código identifica uma condição que afeta tendões do lado do polegar, mas, isoladamente, não comprova incapacidade nem relação causal com o trabalho.

Dor na lateral do punho ao segurar objetos, girar uma chave ou mover o polegar pode aparecer nessa condição, mas também ocorre em outros problemas da mão e do punho. O diagnóstico exige avaliação clínica e, quando indicado, exames para diferenciar outras causas.

A lista atualizada de doenças relacionadas ao trabalho do Ministério da Saúde inclui o CID M65.4 e associa a condição a exposições como movimentos articulares repetitivos, posições forçadas e aplicação de força. Essa inclusão orienta a investigação; no caso individual, ainda é necessário analisar as tarefas reais, a cronologia, os fatores não ocupacionais, a documentação médica e a repercussão funcional.


O Que É a Tenossinovite de De Quervain?

A tenossinovite de De Quervain (CID M65.4) compromete os tendões do abdutor longo do polegar e do extensor curto do polegar, que passam pelo primeiro compartimento dorsal na região lateral do punho, junto ao processo estiloide do rádio.

Quando esses tendões se espessam por uso excessivo ou inflamação repetida, passam a sofrer atrito ao atravessar o túnel, gerando dor, inchaço e dificuldade de movimento. É como se os tendões "engrossassem" demais para o espaço disponível, e cada movimento do polegar ou do punho se transformasse em uma fonte de dor.

Na prática, isso afeta diretamente a capacidade de realizar atividades que dependem da mão e do punho, tanto no trabalho quanto no dia a dia. Segurar objetos, fazer pinça com o polegar, girar a mão, usar ferramentas: tudo se torna doloroso e, em casos mais graves, incapacitante.


Sintomas: Como a Tenossinovite de De Quervain Se Manifesta

Os sintomas são bastante característicos, o que facilita o diagnóstico clínico, mas atenção: o fato de os sintomas serem "típicos" não significa que a perícia médica seja simples. Veja os principais:

Dor na face lateral do punho: O sintoma principal. A dor se localiza sobre o processo estiloide do rádio (a proeminência óssea do lado do polegar) e pode irradiar para o antebraço ou para o polegar.

Dor ao movimento e à preensão: Segurar objetos, fazer pinça com o polegar, girar o punho ou estender o polegar desencadeiam ou agravam a dor. Nos casos mais intensos, até movimentos sutis provocam desconforto.

Caráter variável da dor: Os pacientes descrevem sensações diversas, pontada, facada, queimação. Alguns relatam dormência e formigamento discretos, provavelmente pela proximidade do nervo sensitivo radial, que pode ser envolvido no processo inflamatório.

Sinais inflamatórios: Em fases agudas, pode haver inchaço, vermelhidão e calor local evidentes, com dor que chega a ser insuportável ao toque.

Limitação funcional progressiva: Com a cronificação, a capacidade de realizar tarefas manuais diminui progressivamente, comprometendo tanto as atividades laborais quanto as de vida diária.

💡 Você sabia? A tenossinovite de De Quervain pode ser investigada no contexto de LER/DORT (Lesões por Esforço Repetitivo / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) quando há exposição ocupacional compatível. O enquadramento e seus efeitos não são automáticos: dependem do nexo, da repercussão funcional, das provas e dos requisitos aplicáveis.


O Que Causa a Tenossinovite de De Quervain?

A etiologia é multifatorial, como a maioria das doenças ocupacionais. Mas os fatores de risco ocupacionais estão bem documentados e são reconhecidos pela literatura médica e pelo Ministério da Saúde.

Fatores de Risco Ocupacionais

As causas ocupacionais da tenossinovite de De Quervain estão diretamente ligadas ao tipo de movimento que o trabalhador realiza com as mãos e punhos ao longo da jornada:

Movimentos repetitivos do polegar: A repetição constante de movimentos de flexão, extensão e abdução do polegar é o fator de risco mais relevante. Trabalhadores que fazem pinça de polegar repetidamente ao longo do dia estão entre os mais afetados.

Pinça de polegar associada a força: Quando o movimento de pinça é realizado junto com flexão, extensão, rotação ou desvio ulnar do punho, especialmente com aplicação de força, o risco aumenta significativamente.

Desvio ulnar repetitivo do punho: Movimentos laterais do punho em direção ao dedo mínimo (desvio ulnar), quando realizados repetidamente, forçam os tendões do primeiro compartimento contra o túnel osteofibroso.

Polegar mantido em posição elevada ou abduzida: Atividades que exigem manter o polegar afastado da mão por períodos prolongados durante o trabalho.

Atividades Laborais Mais Associadas

Algumas atividades profissionais concentram vários desses fatores de risco simultaneamente:

  • Uso prolongado de chave de fenda e ferramentas manuais similares
  • Montagem de equipamentos eletrônicos e componentes que exigem pinça fina e repetitiva
  • Uso prolongado de tesouras (profissionais de costura, cabeleireiros, podadores)
  • Trabalho em linhas de montagem com movimentos repetitivos das mãos
  • Atividades de digitação e uso de mouse em jornadas prolongadas sem pausas
  • Trabalhos que envolvem empacotamento, embalagem e parafusamento manual

Uma atividade não precisa ser fisicamente pesada para merecer investigação. Movimentos repetidos, posições forçadas e aplicação de força podem compor a exposição relevante; frequência, duração, intensidade, pausas e organização do trabalho devem ser avaliadas em conjunto.

Fatores Não Ocupacionais

A tenossinovite de De Quervain também pode estar associada a fatores não ocupacionais, como doenças reumáticas (artrite reumatoide), doenças de depósito, alterações hormonais (gravidez, puerpério) e atividades esportivas. Na perícia, o perito deve avaliar se esses fatores estão presentes, mas a existência deles não exclui automaticamente a contribuição ocupacional.


Como o Diagnóstico É Feito

O diagnóstico da tenossinovite de De Quervain é essencialmente clínico, baseado no exame físico e na história do paciente. Exames de imagem geralmente não são necessários para confirmar o diagnóstico, embora possam complementar a avaliação.

O Teste de Finkelstein

O teste clínico mais importante para o diagnóstico é o teste de Finkelstein (ou sua variação, o teste de Eichhoff). O procedimento consiste em:

  1. O paciente flexiona o polegar e o posiciona dentro da palma da mão, envolvendo-o com os outros dedos
  2. O examinador realiza um desvio ulnar do punho (inclina o punho em direção ao dedo mínimo)
  3. Se o paciente referir dor intensa na região do processo estiloide do rádio, o teste é positivo

O resultado do teste deve ser interpretado junto com a história clínica e o restante do exame físico. Dor nessa manobra não substitui o diagnóstico médico nem afasta, sozinha, outras causas de dor no lado do polegar.

Exames Complementares

A ultrassonografia pode complementar a avaliação quando houver dúvida diagnóstica ou necessidade de investigar outras alterações. A indicação depende do quadro clínico; nem todo caso exige exame de imagem.

Exames laboratoriais são úteis apenas para diagnóstico diferencial, afastar doenças reumáticas, por exemplo, e não para confirmar a tenossinovite em si.

Aqui entra um ponto que merece atenção especial na perícia: justamente por ser um diagnóstico predominantemente clínico, a qualidade do exame físico realizado pelo perito é determinante. Se o perito não realiza o teste de Finkelstein adequadamente, ou se não avalia a amplitude de movimento do punho e do polegar com rigor, o laudo pode subestimar a gravidade do quadro. Você saberia avaliar se o teste foi aplicado com a técnica correta?


Quando a Tenossinovite de De Quervain Pode Ser Doença do Trabalho

A lista de doenças relacionadas ao trabalho do Ministério da Saúde inclui o CID M65.4 e aponta exposições biomecânicas compatíveis, como movimentos articulares repetitivos, posições forçadas e aplicação de força. Isso não torna todo diagnóstico de De Quervain automaticamente ocupacional: a relação precisa ser analisada no caso concreto.

A Lei nº 8.213/1991 distingue doença profissional e doença do trabalho e também considera a hipótese em que o trabalho, embora não seja a causa única, contribui diretamente para a lesão ou para a redução da capacidade. A análise costuma confrontar:

  • tarefas efetivamente realizadas, frequência, força, postura e pausas;
  • início e evolução dos sintomas em relação às exposições;
  • exame clínico, tratamentos, afastamentos e documentação médica;
  • fatores pessoais e atividades não ocupacionais relevantes;
  • repercussão funcional e coerência entre os diferentes registros.

Consequências previdenciárias, trabalhistas ou indenizatórias dependem do enquadramento, das provas e dos requisitos aplicáveis. Por exemplo, o art. 118 da Lei nº 8.213/1991 prevê garantia de manutenção do contrato pelo prazo mínimo de 12 meses após a cessação do auxílio-doença acidentário, nos termos do próprio artigo. O art. 22 atribui à empresa ou ao empregador doméstico o dever de comunicar o acidente do trabalho à Previdência Social; a CAT e seus efeitos devem ser examinados conforme os fatos do caso.

Em processo judicial, o laudo pericial é um dos elementos de prova e deve ser apreciado pelo juiz em conjunto com o restante do processo. Para entender o rito e os limites dessa avaliação, consulte o guia sobre como funciona a perícia médica judicial.


O Desafio do Nexo Causal na Perícia

O ponto central é verificar se existe nexo causal ou concausal entre as exposições demonstradas e o quadro clínico. Para isso, o perito precisa ponderar a contribuição do trabalho frente aos demais fatores de risco e explicar como chegou à conclusão.

Argumentos Comuns Para Negar o Nexo

A defesa do empregador frequentemente utiliza argumentos como:

  • "A doença é degenerativa e compatível com a idade", quando, na verdade, a tenossinovite de De Quervain é uma doença inflamatória, não degenerativa
  • "A trabalhadora está na faixa etária em que alterações hormonais podem causar a doença", o que pode ser verdade, mas não exclui a contribuição ocupacional
  • "Outros fatores, como uso de celular ou atividades domésticas, podem ser a causa", argumento que tenta transferir a responsabilidade sem analisar a carga de trabalho real

Sem um profissional com conhecimento médico para contestar essas alegações com fundamentação técnica, elas podem ser aceitas pelo perito, e incorporadas ao laudo como justificativa para a negação do nexo.

O Que a Avaliação Pericial Deve Considerar

Conforme o objeto definido no processo e os documentos disponíveis, a avaliação pode incluir:

  • Realização correta do teste de Finkelstein
  • Avaliação da amplitude de movimento do punho e polegar bilateralmente
  • Análise detalhada das atividades laborais, tipo de movimento, frequência, duração da jornada, ausência de pausas
  • Avaliação de fatores organizacionais do trabalho, metas, ritmo, invariabilidade da tarefa
  • Consideração da cronologia, quando os sintomas começaram em relação ao início da atividade laboral
  • Análise da documentação médica, evolução clínica, tratamentos realizados, afastamentos

Quando um elemento relevante fica sem análise ou explicação, as partes podem discutir com seus advogados se há base para pedir esclarecimentos. A suficiência do laudo depende do objeto da perícia e do conjunto probatório, não de uma lista automática de procedimentos.


O Papel do Assistente Técnico na Tenossinovite de De Quervain

Nos casos de tenossinovite de De Quervain com alegação de nexo ocupacional, o assistente técnico indicado pela parte, nos termos dos arts. 465 e 466 do CPC, pode contribuir em diferentes etapas da prova pericial:

  • Acompanha a perícia e verifica se o teste de Finkelstein foi realizado corretamente e se o exame físico foi completo, incluindo avaliação bilateral para comparação
  • Formula quesitos técnicos que direcionam a análise do perito para a exposição ocupacional específica, tipo de movimento, frequência, carga horária, ausência de medidas ergonômicas
  • Contesta argumentos infundados da defesa, como atribuir a doença a "fatores degenerativos" quando se trata de uma patologia inflamatória
  • Analisa o laudo pericial verificando se os achados, as exposições e as fontes técnicas foram considerados de forma coerente
  • Elabora parecer técnico fundamentado demonstrando que as condições de trabalho configuram fator de risco reconhecido para a tenossinovite de De Quervain

Imagine esta situação: uma trabalhadora de linha de montagem de eletrônicos, após anos fazendo pinça fina repetitiva, desenvolve tenossinovite de De Quervain bilateral. O perito conclui que a condição é "multifatorial", mas não detalha a análise dos fatores laborais. Um assistente técnico pode comparar essa conclusão com as exposições descritas, a documentação e os fatores de risco reconhecidos pelo Ministério da Saúde, apontando eventual lacuna e formulando pedido técnico de esclarecimento.

O objetivo não é garantir uma conclusão favorável, mas tornar explícitos os dados, os critérios e as divergências médicas relevantes. Veja também o que faz o assistente técnico em perícia médica.

⚠️ Importante: A evolução dos sintomas em períodos de exposição, afastamento e retorno pode ser relevante, mas não comprova o nexo isoladamente. Esse padrão deve ser documentado e analisado junto com as demais evidências.


Tratamento: O Que Você Precisa Saber

Embora o foco deste artigo seja a relação com o trabalho, conhecer as opções de tratamento é relevante porque a documentação do tratamento compõe parte importante do histórico que o perito avalia.

O tratamento deve ser individualizado por profissional de saúde. Conforme a avaliação, pode envolver controle da dor, adaptação temporária das atividades, imobilização e reabilitação. Medicamentos, infiltrações e procedimentos não devem ser iniciados por conta própria.

Protocolos de encaminhamento do Ministério da Saúde indicam avaliação especializada quando a tenossinovite de De Quervain não melhora com tratamento clínico otimizado. A decisão sobre exames, duração do tratamento ou cirurgia depende dos sintomas, do impacto funcional, das condições associadas e da resposta às medidas já adotadas.

Para a perícia, o histórico de tratamento, incluindo a resposta às medidas adotadas e eventuais recidivas, ajuda a documentar a evolução e a repercussão funcional. Seu peso na análise do nexo depende da cronologia e do conjunto das demais evidências.


Fontes oficiais

Conclusão: CID M65.4 Identifica a Condição, Não o Nexo

O CID M65.4 identifica a tenossinovite estiloide radial de De Quervain. A lista do Ministério da Saúde reconhece exposições ocupacionais compatíveis, mas nem o código nem a presença de uma atividade repetitiva resolvem sozinhos a análise de nexo.

A avaliação deve relacionar tarefas reais, cronologia, achados clínicos, documentação e fatores alternativos. Quem ainda está identificando a origem da dor pode começar pelo guia sobre dor no punho e na mão relacionada ao trabalho. Em um processo, a necessidade de assistência técnica depende da fase, do objeto da perícia e da questão médica concreta.

Análise médico-pericial

O nexo com o trabalho precisa de avaliação individual

A equipe pode revisar tarefas, cronologia, documentos médicos e a fase do processo para explicar o escopo técnico possível, sem promessa de resultado.

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Dr. Mário Guimarães

Dr. Mário Guimarães

CRM-DF 18.666 · RQE 17.972

Médico especialista em Medicina Legal e Perícias Médicas. Ex-Corregedor do CRM-DF. Master in Law, Penn Law (Ivy League). +1.000 atuações em 3 países.

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